Tem dúvidas sobre o trabalho nas lojas duty free? veja o depoimento e explicação de uma tripulante. Texto original publicado no blog : -> http://www.pegaomapa.com.br/2016/07/a-vida-nas-lojas.html?m=1
O trabalho nas lojas é visto pela maioria da tripulação como
um trabalho “mais tranquilo”, então
venho aqui com a missão de contar pra vocês que NÃO É BEM ASSIM,
AMIGUINHOS e falar sobre os prós e contras da vida dessa galera que ganha mal,
trabalha cerca de 13 horas por dia, em pé, carrega muitas caixas pra cima e pra
baixo e tá sempre linda e bem arrumada.
Nós, os lindos do shopping.
Todo dia 1 do cruzeiro (o turnaround), recebemos não só
novos hóspedes, mas também novas cargas, que são nosso estoque. Nesse dia nós
trabalhamos igual cachorro. Geralmente são 20 pallets de carga que precisa ser
despaletizada, carregada em troilers e levadas ao armazém, onde ficamos por
horas pra tentar fazer tudo caber da forma mais ordenada possível. A gente
carrega muita caixa, se machuca, fica roxa, as pernas doem, as costas doem, no
final do dia estamos acabadas, mas maquiadas e lindas, porque precisamos abrir
as lojas. É um dia de porto, mas não saímos. Não dá tempo.
Para todos os outros dias, os horários vão de acordo com a
programação do navio: se dia de porto, trabalhamos depois que ele desatraca, se
dia de mar, trabalhamos o dia inteiro, por cerca de 13 horas com duas pausas
pra refeições. Fechamos a lojas e arrumamos tudo para que tudo esteja pronto
para dia seguinte.
Nas pausas dos dias de mar estamos sempre exaustos, a
maioria de nós dorme. Eu durmo nem que seja um cochilo zumbi de 30 minutos. Há
quem deixe de comer para dormir (não é o meu caso). Nos dias que antecedem dias
de porto, vamos para o bar. É importante ir para o bar mesmo que você não beba.
Ir para o bar mantém a sua saúde mental na vida a bordo. Também têm aqueles
dias em que vamos só por meia horinha, só pra respirar ar fresco (o deck é
aberto). E tem dias que está lindo, porque no Alaska o sol se põe muito tarde e
nasce muito cedo. Dia desses começou a nascer às três e meia da amanhã todo
mundo ficou meio “gente, o que tá acontecendo aqui?!” Foi lindo! Nessas horas
você esquece o cansaço e sorri por estar vivendo algo tão único. As noites são
sempre felizes no bar.
Os pés e pernas doem todos os dias. Doem mesmo e doem muito.
Tênis e palmilhas ortopédicas são essenciais, mas eles vão doer mesmo assim e
aprendemos a lidar com isso. E como se não bastasse a rotina de 13 horas em pé,
num dia de porto ainda fazemos uma trilha na montanha! Temos que cuidar muito
do nosso corpo aqui, porque honestamente exigimos muito dele.
Ganhamos mal, muito mal. Ganhamos 1 terço do que um cargo
que tem uma jornada similar a nossa ganha na Royal (já expliquei que sou
terceirizada e a minha contratante é a Starboard, ne?!) Mas então, por que
trabalhar nas lojas e não em qualquer outro departamento da Royal? Porque nós
(shopping) temos uma coisa que nenhum outro departamento tem (exceto o pessoal
das excursões) que é a chance de ter um dia inteiro de folga em dia de porto.
Funciona assim: todos os departamentos da Royal têm a sua
escala de trabalho, independente de se aquele dia é um dia de mar ou de porto.
O pessoal do “guess services”, que é o atendimento aos hóspedes, por exemplo,
também trabalha cerca de 13 horas por dia, também trabalha em pé o dia inteiro,
mas ganha 3 vezes mais. Em contrapartida, eles tem apenas 3 horas de folga por
dia, enquanto que nós temos um dia inteiro, caso esse dia seja de porto.
É importante ressaltar essa diferença, porque ela é
determinante no quesito “o que você espera da vida a bordo?” Se você espera
ganhar e guardar dinheiro, existe essa opção. Se vocês não se importa em ganhar
menos mas quer ter a oportunidade de, por exemplo, fazer um passeio de
helicóptero e depois estar em um trenó puxado por huskies no topo de uma
montanha coberta de neve, também existe essa opção.
Em resumo, trabalhamos tão duro quanto os outros
departamentos, mas ganhamos menos. Em contrapartida, temos TEMPO nos dias de
porto, e isso é valiosíssimo. É claro que eu adoraria ganhar mais dinheiro, mas
quando vejo algumas pessoas correndo porque só têm 3 horas num porto pra fazer
qualquer coisa, tenho o sentimento de que todo o trabalho duro vale a pena. E
eu sei também que essas pessoas fazem as 3 horas valerem, e no final do mês têm
uma boa quantia pra enviar pras suas famílias, como muitos fazem. Como tudo na
vida, escolhas.
A pressão para que batamos as metas existe e as metas são
praticamente “imbatíveis” (e todos sabem disso). Já estamos no sétimo cruzeiro
para o Alaska e batemos a meta em apenas 1, por pura sorte, porque uma hóspede
riquíssima resolveu comprar muitos diamantes aquela noite. Mas embora não
batamos as metas por cruzeiro, ao menos conseguimos alcançar as metas diárias,
que são mais razoáveis. Consigo na maioria das noites.
As lojas da Royal são 6:
- jóias e relógios
- óculos e bolsas (mais caras)
- semi-jóias e bolsas (mais baratas)
- perfume e maquiagem
- bebidas
- souvenirs
Além das lojas, montamos as mesas com as promoções na “rua”
entre as lojas (aquela da foto do post anterior, a Royal Promenade). Ali
vendemos de tudo. Uma das promoções é a de “qualquer coisa por 10 dólares”.
Quando da a hora dessa promoção e liberamos as mesas, toda a civilidade contida
nos hóspedes se dissipa e a Promenade vira um ringue onde os fracos não tem
vez. É bizarro e assustador. É homem primata capitalismo selvagem.
Fiquei por duas semanas na loja de souvenirs e odiei com
todo meu coração. A loja é muito grande, vende muita “coisinha”, o que torna
impossível de se manter organizada, e quem trabalha lá fica presa no caixa
atendendo hóspede atrás de hóspede, não dá tempo nem de beber água. Pedi
porfavorzinho ao meu gerente que me deixasse ir pra outra loja. Graças a Deus
ele me tirou de lá e fiquei nas promoções por 1 semana. É bem dinâmico e
divertido. Depois, a responsável pela loja de semi-jóias saiu de férias e passaram
pra mim (feliz estou). Vendo joias lindas e quero comprar todas. Lá tenho tempo
com os hóspedes e posso de fato atende-los, mesmo que a loja esteja cheia.
Tenho conhecido pessoas maravilhosas. Nosso gerente tem um perfil de mudar as
pessoas de lugar, então tudo pode acontecer...
As lojas precisam sempre estar impecáveis. O capitão,
inclusive, me visita uma vez por semana. Ele é muito tranquilo e gente boa, vai
lá pra bater papo, mas sei que ele vai mesmo é pra ver quão arrumada e limpa
está a loja. Ele visita todas. Temos que limpar todas as prateleiras e gostaria
de informar que aquela piada de tiozão de que não existe poeira em alto mar
está a partir de agora CANCELADA. Geralmente termino o dia cheirando a vidrex.
Estou indo pro segundo mês e agora tudo começa a melhorar.
Acostumei com a rotina, com o cansaço e com o ritmo. Conheço melhor meus
produtos então consigo vender melhor. Gosto da comida e aprendi a andar pelo
navio. A vida ta boa.
O time é bom, somos em 12 mulheres, 3 homens, 2 assistentes de
gerente (mulheres) e 1 gerente (homem). Brasil, Peru, Chile, México, Jamaica,
Inglaterra, Irlanda, Romênia, Croácia, Eslovênia, Botswana e Austrália.
Praticamente todos se gostam (risos) e trabalhamos em sintonia porque as lojas
e suas respetivas vendas são interligadas pra gerar um resultando único, aquele
que a gente nunca consegue bater a não ser que alguma rica surte nos diamantes.
Mas tamo aí, pés doendo e ansiosos pelo próximo dia de porto. Nós, os lindos
dos shopping.
Carol




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